As Erínias
Divindades do mundo infernal entre os gregos, identificam-se às Fúrias romanas. Nasceram da Terra fecundada pelo sangue do Céu. Eram forças misteriosas, que não reconheciam a autoridade dos deuses olímpicos. O Próprio Júpiter (Zeus) devia obedecer-lhes. Seu número fixa-se geralmente em três : Alecto, que persegue ininterruptamente os criminosos com tochas acessas, tornando-os visíveis; Tisífone, que os açoita com seu chicote e Megera, que grita em seus ouvidos, sem parar, os crimes cometidos. Vingadoras dos crimes, perseguiam sua vítima torturando-a de todas as maneiras, até enlouquecê-la.

São elas as forças primordiais cuja função essencial é guardar a recordação da afronta e de fazer o criminoso pagar, seja qual for o tempo necessário para isso. Castigavam especialmente os crimes contra a família. As Erínias representam o ódio, a recordação, a memória do erro, e a exigência de que o crime seja castigado. São representadas com asas, os cabelos emaranhados de serpentes e trazendo nas mãos tochas ou chicotes.

As Erínias são acusadas de doenças, abalos de saúde, loucura e morte. Seu mau cheiro e sua aparência horrenda implicam paroxismo de autodesprezo, que mobilizam a uma fuga frenética de si mesmo valendo-se de rotas de evasão de todo o tipo. Seus látegos e grilhões incandescentes laceram a carne e esculpem debruns vivos enquanto prosseguem em seu demoníaco trabalho de punição e destruição.

Na peça "Oréstia", de Ésquilo, Orestes, o filho de Clitemnestra e de Agamenon, mata a mãe, enfurecendo assim as Erínias, que saíram em sua perseguição. Açoitado e relembrado de seu fúnebre feito, Orestes corre em busca de um refúgio e o encontra sob Apolo, que o abriga e protege. Nova lei deverá surgir e com ela a invenção de um tribunal: Orestes será julgado no Areópago. É o começo do declínio do império das Erínias. Dos seis juízes, três votam a favor do perdão do crime de Orestes; três votam a favor das Erínias. A deusa Atena é convocada. Seu voto decisivo é fundamental para o desempate e ela vota a favor de Orestes. As Erínias ameaçam arrasar a Terra, por vingança. Atena promete-lhes rituais especiais em sua honra e as Erínias passam a denominar-se Eumênides (gentis) que, junto à razão de Atena e Apolo, irão avaliar de forma racional os seres humanos e seus atos insensatos.

A cena da perseguição de Orestes é retratada na pintura intitulada "Orestes perseguido pelas Fúrias", de Adolphe-William Bouguereau (1825-1905), que atualmente integra o Chrysiler Museum of Art, em Norfolk, Virgínia, E.U.A. Orestes tenta fugir das Erínias, o que transmite todo o caráter de eternidade e inexorabilidade das deusas vingadoras. Estas, por sua vez, são retratadas da maneira descrita por Ésquilo e todas apontam para o punhal cravado no peito da mãe multiplicando, dessa maneira, a sensação de culpa e terror.

Sob o ponto de vista psicanalítico, constituem a chamada raiva primal de nosso íntimo, personificadas no desejo de vingança diante de uma ameaça real ou iminente. Onde elas assumem o controle, podemos ficar chocados com os extremos a que poderemos chegar. Quando um arquétipo desta proporção se manifesta em uma coletividade, pode levá-la a convulsões perigosas e até a guerra.


Fontes:

Dicionário de Mitologia Greco-Romana. Abril Cultural, 1973.
O universo, os deuses, os homens. Jean-Pierre Vernant, Companhia das Letras, 2000.
http://www.rubedo.psc.br/artemito/orestes.htm
http://www.filonet.pro.br/mitologia/erinias.htm

Orestes perseguido pelas Fúrias