Nunca subestime a ira de uma mulher desprezada. Se Urbain Grandier, pároco francês do século XVII estivesse consciente disso, talvez seu final tivesse sido diferente. Não que ele fosse um santo. Mas, seus pecados não eram assim tão diferentes daqueles que levam a Igreja Católica aos noticiários atuais.
Seu erro foi despertar a ira do terrível Cardeal de Richelieu que não mediu esforços para dar um fim à carreira e à vida do pároco.
Grandier era famoso, dentre outra coisa, pelos relacionamentos mantidos com diversas mulheres. Fama essa que chegou até o convento das freiras ursulinas de Loudun e despertou o interesse de Joana dos Anjos (Jeanne des Anges) a prioresa local que obcecada por Grandier decidiu conquistá-lo. Para isso escreveu uma carta ao pároco convidando-o para o convento. Entretanto, o clérigo não tinha nenhuma razão que justificasse uma ida ao local e, assim, recusou o convite.
“Dos píncaros da alegria, a prioresa mergulhou de cabeça num desapontamento enorme, onde a dor se associava ao orgulho ferido, e do qual, enquanto ela ruminava o gosto amargo da derrota, emergia uma fria e persistente ira, uma obcecante e malvada aversão.” (Huxley, Aldous. Os Demônios de Louun, p. 113)
Joana juntou-se, então, aos inimigos de Grandier (que não eram poucos). Tinha início, então, um dos mais famosos e bizarros casos investigados pelos Tribunais da Santa Inquisição. Joana dos Anjos fingiu-se possuída e arrastou consigo as companheiras de convento, culpando ninguém menos que Urbain Grandier que, segundo ela, era o responsável pelos acontecimentos.
Richelieu e seus aliados encontraram o cenário perfeito para dar fim às aventuras do pároco. As freiras eram submetidas a exorcismos espetaculares diariamente e a coisa toda se transformou num espetáculo teatral.
Grandier foi torturado, julgado, condenado e queimado vivo. Tudo isso porque despertou a ira de uma mulher que, não sabendo lidar com a rejeição, não mediu esforços para ver aquele que a tinha desprezado pagar pelo que tinha feito com ela. |